FILMES DE STEVEN SPIELBERG
APANHADOS - Catch Me If You Can, 2002





Andamos há trinta anos a ver filmes do Sr. Spielberg, e mesmo assim ele é como aquele menino a quem
deus porá a mão por baixo, ao evitar a queda, o trambolhão mais duro. E em trinta anos, dezenas de
filmes, foram poucas as quedas, e frequentes os êxitos.
Os filmes de Spielberg são no geral histórias com princípio, meio e fim, e adicionalmente com um fim
preciso, um resultado de uma equação que se pretende demonstrar.
Aqui temos uma parábola americana, o pai Frank (Christophen Walken) é um ex-soldado americano da 2ª
guerra mundial que trouxe de França a sua noiva e futura esposa (Nathalie Baye). E têm um filho que é o
ângulo ideal deste triângulo, Leonardo di Caprio (Frank Jr.). Não se desenhando bem o porquê percebe-
se progressivamente que os negócios não vão bem, que os esquemas paternos de lidar com os bancos e
o IRS não são nem lineares nem bem sucedidos, que a mãe não está contente com a situação e que
busca consolo alheio. São vários os filmes de Spielberg a lidar com casas desfeitas, este é mais um.
Frank Jr é um menino brilhante, e em que o engano e a mistificação parecem ser genéticos, já que nem
pai nem mãe o repreendem duramente nos primeiros eventos reveladores. Quando tudo desaba e a casa
e o casamento implodem, Frank Jr foge e parte para viver o seu sonho, já que, como possivelmente os
pais, preparado não estava para uma dura e cinzenta realidade.
E é neste momento que entra Tom Hanks. E este filme, com estes actores, não podia não ser americano.
Curioso que seja Spielberg a manejar esta parábola sobre duas abordagens do sonho e do ideal
americano, matizadas nas personagens de di Caprio e de Tom Hanks. Frank Jr torna-se num falsário
brilhante, e vai construindo a sua carreira assumindo diversos papéis e circulando por diversos cenários,
sustentando-se através da arte de falsificar cheques, que eleva a alturas até aí insuspeitadas pelo FBI.
Aqui trabalha/vive Carl (Tom Hanks), um obscuro funcionário perito em fraude bancária, que antes dos
demais se apercebe da dimensão do inimigo que o estado, a banca, etc. têm pela frente.
O filme não é assim tão linear, Spielberg sabe que um filme seu já não surpreende ninguém, pelo menos
não de uma forma que valha a pena esconder até ao fim que Frank Jr acaba preso. Daí algumas
intersecções a mostrarem a prisão em França de di Caprio, e a sua viagem de avião de volta à América.
Frank Jr persegue um sonho de fortuna e glória, e objectivamente não deseja fazer mal a ninguém. Mas
não pode parar. Tenta uma trégua, imediatamente antes de um casamento que obviamente não é
consumado, mas a lei e a ordem não deixam. De uma forma não demasiado subtil, o filme vai expondo a
solidão de duas pessoas obcecadas, polícia e ladrão, sozinhas uma perante a outra numa perseguição
que tem peripécias rocambolescas, mas que não é para rir. Como é apanhado o nosso artista? Em
França, na aldeia natal da mãe, onde Frank Jr tem uma velha e enorme e perfeita impressora a trabalhar
para ele. Numa confrontação não demasiado credível os dois actores discorrem sobre a verdade e a
mentira, e diCaprio entrega-se quando e só quando Carl jura pela sua filha, jura que se verifica apenas
quase verdadeira… Com a verdade me enganas...
Frank Jr procura um sonho ideal de beleza, grandeza e bem-estar que os seus pais lhe incutiram, sonho
sem grandes pontos de contacto com o mundo real, mas que é efectivamente uma versão do sonho
americano. As suas trapaças e mentiras, que na manipulação do filme aparecem às vezes como que
forçadas pelas circunstâncias do enredo, são a forma de Frank Jr conviver com uma realidade que não o
deixa voltar à paz da não mentira. As promessas que iteradamente vai fazendo ao pai (um Christopher
Walken credível) vão subindo à medida que o irreal se torna cada vez mais espesso. Mas era só o pai o
ídolo falhado que este rapaz tenta cumprir? Ao saber da morte deste por uma inglória queda na Grand
Central ao tentar apanhar um comboio (a antítese do sonho americano) Frank Jr foge por uma última vez
e vai à procura da mãe. Mãe esta – figura não muito agradável ao longo de toda a história – que já tinha
fugido do mesmo sonho e encontrava-se a salvo casada e na casa dum ex-amante, e com uma (nova)
filha. Sem casa e sem sonho, di Caprio pede que o prendam.
A moral? Falemos antes de Tom Hanks. Actor-ícone de uma determinada face correcta da América, esta
correcção toma aqui a forma de um funcionário que vive só para o seu trabalho, anónimo, separado, com
uma filha em Chicago, que vai ver só de vez em quando. Que perde os primeiros rounds com o seu
brilhante inimigo falsário, mas que acaba por apanhar o seu homem. O reverso do sonho americano, mas
também um ideal: alguém que faz as coisas funcionar. Que não é simpático, detestado sim pelos colegas,
e mesmo pelos superiores, mas que acaba por luteranamente adoptar Frank Jr como seu “filho”. Vai
regenerá-lo, e adquiri-lo como mais-valia para o seu departamento devido à sua expertise. Primeiro on
probation, depois como mais um agente do FBI. O filme baseia-se numa história verdadeira, e na
autobiografia deste Frank Jr, que realmente existiu, constituiu família, ganhou muito dinheiro, etc. An  
American Dream come true, com prisão pelo meio e tudo, onde dois mundos acabam por colaborar. Esta
moral é interessante, mais ainda se baseada numa história verdadeira. Não nos resta outra alternativa
senão acreditar em algo que é verdade ! Pena que, desde há muito tempo Spielberg se dedique somente
a pôr a excepção em filme, e não a mais frequente dura verdade, americana ou outra, não posta em
autobiografia.
Bom filme, bem feito e pouca gente sabe fazer melhor, pena que não seja assim na vida real.


DAVID, O MENINO QUE NAO DEVIA TER EXISTIDO,
Artificial Inteligence, 2001






Artificial Inteligence é um conto infantil escrito e realizado por Steven Spielberg. E mencionar qu
e esteve para ser dirigido por Kubrick pouco acrescenta, pois é dos filmes mais intrinsecamente
Spielberg. Talvez de Kubrick tenha ficado a antipatia visceral pelos humanos, que este filme no fim
deixa no ar...
Já muitos conhecem a história: num futuro não demasiadamente longínquo, um casal sofre a perda
do seu filho Martin, perda à qual a mãe Monica (Frances O’Connor) não consegue resistir, ficando
bloqueada no tempo, e nessa perda. O seu marido é então levado a oferecer-lhe a última palavra
em robôts humanóides, David (Haley Joel Osment). A criança perfeita. Perfeita ? Porque ama. E de
uma forma... perfeita. O autor desta proeza, o cientista (e industrial...) Dr. Hobby (William Hurt), é
dos pigmaliões mais detestáveis da história do cinema.
As coisas não correm muito bem, porque a mãe vê em David o que ele apenas é, um robôt,
enquanto este é na sua perfeição uma criança emotiva, e todas as crianças querem é ser únicas
para a sua mãe, mesmo quando ela é adquirida. David é unidireccional na sua dedicação,
programada até ao mais ínfimo detalhe. Portanto, o amor de David pelos seus pais, e sobretudo
pela mãe Monica é demasiado perfeito, e não pestaneja. Aliás David também não pestaneja.
O estatuto de David pulveriza-se quando por “milagre da ciência” Martin, o filho perdido, volta à
vida. A crueldade esperada de Henry em relação ao inocente irmão robôt David (a criação da
ciança perfeita excluira a óbvia crueldade infantil) desemboca numa catástrofe familiar onde David
é excluido da família adoptiva. Começa aqui um 2º filme, onde David vai à procura duma mítica
Fada Azul, aquela que, como no conto de Collodi, “Pinóquio”, transforma bonecos em crianças a
sério.
David quer recuperar o amor de sua mãe. Nesta procura, nesta desesperada expedição, David
tem a companhia de outros dois robôts, um prostituto masculino de nome Gigolo Joe (Jude Law), e
um urso de peluche. E a procura desemboca no nada, pois no fim, o Dr. Sabichão das feiras,
influenciado pela informática do Dr. Hobby, traz David até à afogada Man-hattan (mas ainda com
as twin towers...), onde se situa a sede da companhia do Dr. Hobby, e onde David fora fabricado.
Hobby explica a David “tudo”, diz-lhe como está emocionado com a sua originalidade emocional,
tanto que não se apercebe do drama atroz que o robôt-criança vive: afinal, uma máquina não é
única, pode-se sempre fazer mais.
David “suicida-se” atirando-se à água, mas claro, ele é um robôt e não morre. Isto, lembro é um
conto-de-fadas. E vamos entrar no reino das coincidências. David acaba por encontrar a sua Fada
Azul quando “embate” nela no fundo do rio Hudson, ela uma figura de feira, ele dentro do seu
anfibicóptero. Uma velha roda gigante,de feira, a mesma que pode simbolizar a vida e o ir e vir das
coisas boas e más, perde nesse momento um determinado apoio e cai sobre o nosso menino e
aprisiona-o por dois mil anos, frente à sua fada de plástico, à qual não cessa de pedir o que
sempre pediu; até ao fim. Termina aqui o 2º filme. Falta porém  a 3ª parte.
Aqui começa o tal epílogo que todos detestam. Entretanto os humanos deram cabo do mundo, que
entrou numa nova idade do gelo. Os humanos acabaram. E são uns extraterrestres
interessadíssimos nessa extinta espécie que descobrem David e o urso de peluche Teddy. Dois mil
anos depois. David é para eles uma memória viva da espécie humana. E decidem fazê-lo feliz. A
Fada Azul, estilhaçada no acordar, reaparece por magia e oferece a David um dia, um dia apenas
de felicidade com a sua mãe, porque até a tecnologia destes ET’s tem limites. E David, finalmente
egoista como só uma criança o sabe ser, aceita. E consegue viver um dia de absoluta dedicação
mútua com a sua mãe, um dia só, mas que chega. No fim a mãe volta a morrer, ao lado de um
boneco/criança finalmente feliz.
É um filme lindíssimo, de Steven Spielberg. É um filme terrível. Os seus filmes são sempre
magnificamente construidos. Sucedem-se planos e planos desenhados à perfeição. Ele é um
mágico do cinema. Mas este filme ultrapassa-se, é mais que um filme. É um conto infantil à medida
de um Hans C Andersen, pela enorme melancolia que emana do personagem David, e por toda a
tragédia humana que o rodeia, e que termina com a destruição da própria espécie. Como a
Pequena Sereia, David é um ser externo à lógica humana cujo convívio com os humanos não o
torna na mais feliz das criaturas.
Inteligência artificial ? é a única inteligência que se vê durante todo o filme. Talvez por isso os
humanos acabem por se extinguir. Até nós próprios, no fim de todo este massacre (vídé a tourada
de robôts, muito interessante) nos perguntamos do porquê do interesse destes ET’s no fim
connosco !
Este filme é um aviso e tem uma moral. E só podia acabar bem por ser Spielberg, e por outra
simples razão: porque David o merece.
David nunca devia ter existido. Entendamos este filme como uma homenagem anticipatória, já que
certamente iremos construir coisas assim como este David, num futuro não tão longínquo...