FILMES DE SIDNEY POLLACK
SAMURAI MITCHUM, The Yakuza 1975







The Yakuza é um filme atípico na cinematografia de Sidney Pollack, realizador que ficará mais
conhecido por ex. pelos seus filmes românticos (“The Way We Were”, “Out of Africa”),
produtos elegantes e clássicos, dependendo habitualmente de boas prestações de grandes
actores.
The Yakuza tem grandes actores, mas não é disso que se trata. E a chave está no
argumento, escrito pelo “orientalista” e futuro realizador Paul Schrader.
A memória é um bem tão precioso quanto raro. O primeiro grande contacto dos americanos
com o Oriente não foi a Coreia mas o Japão, país que ocuparam (e governaram como um
protectorado durante anos sob o mando do Ger. MacArthur). Robert Mitchum (58 anos
quando do filme) é um ex-soldado, Harry Kilmer, que esteve no Japão como parte do exército
invasor. Amigo do seu amigo, tem um amigo desses tempos, George Tanner, que lhe pede
para voltar ao Japão para interceder pela vida da sua filha, raptada por um líder da máfia
japonesa.
E Mitchum/Kilmer volta. Para o coração das suas recordações, onde jaz uma mulher, Eiko,
que se recusou a ser sua esposa. Onde reside o irmão desta mulher, Tanaka Ken (Ken
Takakura, o “Eastwood japonês”), velho Yakuza com a espada embainhada há anos, vencido
solitário do exército japonês, agradecido a Kilmer porque salvou a vida à irmã, humilhado pela
relação desta com um ocidental invasor. É com este que Mitchum vai falar, pois de alguma
forma ele deve-lhe um favor. Essa forma é o código de honra dos Yakuza. Ao chegar vai ficar
a casa de outro amigo desses tempos, Oliver, que pelos modos e gestos se percebe que
ficara rendido ao Japão e por lá ficara. Acontecem os reencontros, e Mitchum e mais um
ajudante, com  a presença silenciosa de Tanaka Ken vão resgatar a rapariga raptada.
Conseguem-no mas com a morte de uns quantos japoneses, e Ken tem que desembainhar a
sua katana para evitar uma morte. O velho Yakuza voltara, involuntariamente, ao activo.
Se seguirmos a regra de Georges Sadoul (que referência mais intelectual !) para a real
autoria dos filmes, talvez este seja um filme de Paul Schrader. Anos mais tarde Schrader
realizaria uma discutida biografia de Mishima. E noutras obras foi patente o seu fascínio com o
Oriente, bem como os mais diversos códigos (masculinos) de honra e a violência inevitável
que possa daí decorrer. Portanto argumentista de Scorcese em TaxiDriver, e Raging Bull. E
realizador de American Gigolo !
Tal este filme: Mitchum é o melhor que a “Americana” pode oferecer, um John Wayne
relutante com excesso de peso e sleepy eyes, à procura do bem entre dois mundos onde a
honra não é igual. Três amigos a quem o Japão ofereceu negócios ilegais a um, uma nova
vida idealizada a outro, uma mulher impossível ao nosso herói. Do the right thing. To be
honourable. Mitchum, enganado pelo amigo Tanner, desliza até à honra dos samurais e torna-
se um espelho ocidental do Yakuza Tanaka Ken, afinal não irmão mas marido da sua antiga
amante. Filme de uma extrema mas apenas ocasional e delicada violência, em pequenos
rasgos, pequenas janelas de fogo. Veja-se a morte de Tanner por Kilmer, brilhante, e que
decorre num minuto. Filme de velocidade indecisa, reptilínea, húmido, acinzentado. Até ao
duelo final de katana, melhor que “Kill Bill”, dizem.
O Japão moderno anos 70 está aqui. Mas o tema é o Japão de sempre, e o nosso cowboy
legitima a velha ideia cinematográfica de que as sagas de samurais fazem o velho oeste
parecer brincadeira de crianças…