Ele terá nascido. Vendido como um milagre ou o maior de todos eles. Em plástico ou cozido em cerâmica, o loiro menino tem sempre corpo como de dois a seis anos. E o parto recém havido não gera marcas de atribulação, aliás desse tamanho, nem tal coisa seria concebível, não havia mãe que, por mais ajuda angelical que tivesse, suportasse. Lembro-me dum amigo meu do liceu que sustentava ter nascido com sete quilos. Hoje pensaria ter sido ele uma espécie de anticristo. O que ao meu amigo teria enchido de orgulho. Mas, se nasceu mesmo esse bebé silencioso dos presépios e dos postais, terá nascido sustentado em pura magia e superioridade da crença ? E as coisas comuns ? Os passos por onde todas as mães passam para que uma criança saia cá para fora, e seja o comum milagre ? Dizem que nada foi escrito sobre determinados detalhes. Por pudor, esquecimento, ou juízo censório de tempos posteriores. Sendo divina a origem, talvez dessas coisas pequenas nenhuma tenha acontecido, e nessa ausência tenha Maria sentido a especiaria do Divino... mas não, a verdade é que tudo aconteceu como previsto está há milhares de anos: eu conto. A bolsa de águas rompeu pelas nove e meia da noite. Estava escuro. Maria repousava sobre a palha na parte de trás de um estábulo. Água era, mas espessa, quente porque viera donde ele estava, o procurado, ele que viria a seguir. Sentiu a palha húmida e logo secar, ganhar volume, como se de repente se transformasse em colchão de penas. Mal tinha comido, era tão pouco o dinheiro que tinham, José, alheio a tudo o que se estava a passar, à porta de guarda repassava mentalmente as poucas moedas que descansavam no bolso, tentava e não conseguia dividi-las. Maria levantou uma mão, húmida das águas que perdera, e levou aos lábios, e sentiu-se alimentada. “Estou pronta”. E foi então que começaram as contracções. As contracções duraram mais ou menos duas horas. Era a primeira gravidez de Maria, mas tudo lhe tinha sido explicado antes, e Maria começou a fazer toda a força possível para ajudar o seu filho a sair. À medida que as contracções iam avançando em força e ritmo, Maria começou a sentir como que um par de mãos que modelavam o caminho de saída para o bebé. E um ceder das dores, que ainda eram algumas. Mais do que desenhar o canal do parto, era como se estivesse alguém a acabar de esculpir a criança, dando-lhe os últimos retoques, habilidades, o que precisasse o mundo, que se previa difícil a salvação de todo um mundo e gente havia cada vez mais, vejam como era grande Jerusalém, e outras cidades na Palestina, um não acabar, ia ser difícil salvá-los a todos. Mas Maria ao mesmo tempo estava triste, aquela criança fora o seu deus antes de o vir a ser dos demais homens e mulheres, estava a perdê-lo pela primeira vez, sabe-se lá se haveria uma segunda também. Aquelas mãos, o lento descer do pequeno corpo, era esse mundo então a chamar no escuro, a pedir que fossem abertos os olhos de toda a gente, como quem apaga uma queimadura, repara uma cicatriz, liberta um mau espírito e o espanta para as profundezas. E Maria chamou por José, e gritou a sua perda, e chorou, e foram quatro as mãos que lhe secaram as lágrimas. E foi aqui que a cabeça começou a aparecer. Não pesaria nem mais nem menos do que o esperado para uma criança por nascer em fuga: era portanto pequeno e leve. Resultado de milhões de preces ou da pressa dos tempos, saiu rapidamente e envolto no mesmo maná que antes escorrera para preparar a cama de sua mãe. Nasceu... e fez-se luz. Sobre o estábulo uma estrela havia agora que brilhava muito, com raios assimétricos a tirar a compasso as dimensões ao barraco... “ora vamos lá a ver...”. Era uma estrela-parteira, e chegara um bocadinho tarde. Será que ainda podia ser útil ? Maria sangrara um pouco da expulsão do menino, o sangue logo coagulou, e fez-se pão para o descanso. O cordão umbilical ali estava, José olhava para ele como sinal da sua exclusão desta história divina. E não sabia o que fazer. Um pequeno raio de luz desceu lentamente, bailou frente aos olhos de todos, Maria, José, dos animais, e finalmente serviu de bisturi e de cautério. E o menino chorou, como choram todos os bebés, e também sentiu o frio e o medo que era o daquela noite, noite de perigos e de facas à espera. José sentiu a mão amiga da estrela companheira que o vigiava de cima, e limpou a fronte e a boca do menino. Fez seus os raios da estrela e aqueceu o menino. Traiu-se ao buscar parecenças, e depois sorriu, riu ao de leve: “tem fome !””este deus está demasiado fraquinho para salvar quem seja !”” bom dia, bom dia””sim, meu menino, que pode ser dia também de noite””e também agora, nem está escuro!”. É que as crianças, desde que nascem, o que querem é conversa. Levou o bebé a Maria, que o puxou ao peito, o qual o menino tomou com força. Não era ainda leite, Maria sabia-o, o leite viria depois. Como tudo o resto. Maria e José descansaram comendo um pouco daquele pão que tinha nascido do sangue de Maria. E pediram à estrela que se recolhesse um pouco, pois agora queriam dormir. E o menino era um pequeno deus de olhos fechados e que segurava com os dedos um dedo de sua mãe e mais nada, por agora. Guilherme Gama Dez 2004 |
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