| FILMES DE LAWRENCE KASDAN |
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| WHY BE MARRIED ? - THE ACCIDENTAL TOURIST 1988 O tempo é pouco, e o facto de ter visto no Hollywood 2/3 deste meu amado filme fez-me lembrar bastantes detalhes, e querer reflectir e perceber a razão do meu fascínio com esta película. É Kasdan sem ser Kasdan, e com isto quero dizer que não se parece com nenhum dos filmes dele que eu conheço. Resumindo, um lento homem, obsessivo e sofrendo o nome de Macon (William Hurt), perde o seu filho num assalto em que o filho é um bystander. O luto não corre bem, e a esposa Sarah (Kathleen Turner muito anónima, deslocada do filme) decide que seria melhor que se separassem, pois as suas formas de conviver com a perda do filho não coincidem, e vai à sua vida. Macon escreve livros de viagens para quem viaja sem querer viajar, negócios, etc., são conselhos para sobreviver à viagem, não perder o controle de uma situação – estar fora de casa – necessária mas indesejável. Assim é Macon, um virtuoso de uma vida que não existe, quadro agravado com a morte do filho. Produto de uma família condizente, onde vários irmãos sobrevivem à custa da irmã solteira Rose (Amy Wright), vê porém a sua vida transfigurada pela treinadora do seu cão, Muriel (Geena Davis, que aqui ganhou um Oscar), a lower class girl que começa a introduzir-se lentamente na vida de Macon mais as suas estranhezas, o ser treinadora de cães para começar, o seu filho Alexander, tão alérgico que a mãe suspeita será até alérgico ao ar... É um filme sobre o casamento, sobre precisar de alguém, necessitar de alguém, sentir-se útil a alguém. E também é um filme sobre o amor, sim, mas este sentimento pelo meio de todos os outros, e sem sabermos quem vence, quem manda, quem decide os rumos e as viagens. No momento em que Macon se aproxima da casa de Muriel para lhe dizer que não pode ir jantar, ela após um curto interlúdio cómico abre- lhe a porta, recebe-o, pega-lhe pelo braço, depois pela articulação do pulso, ouve-o, ora com os olhos abertos, ora fechando-os ao ouvir o nome da rival, o amor antigo que terá que vencer. Envolve-o em si, e dá-lhe uma casa de novo. Esta é também a história de um homem que precisa que tomem conta dele, o que Muriel fará de bom grado. Kasdan facilita a vida a nós homens ao criar com W Hurt este carácter tão atípico por um lado, e ainda por cima a viver uma grave perda. O cão é um êxito, as cantorias e demais assimetrias de Muriel vão fazendo o seu trabalho. Outro elemento com força é o filho, para quem lenta mas activamente Macon começa a fazer o papel de pai. Duas coisas virão desequilibrar este status quo. Primeiro, a irmã de Macon, Rose, casa-se finalmente, e convida Sarah para primeira dama de honor. A família de Macon não aprova a sua relação com Muriel (um filme também sobre o casamento interclassista, vejam só) e faz o seu trabalho. Macon vê Sarah, e a velha chama afinal ainda arde. Segundo, por uma simples conversa sobre o filho Muriel sem mais delongas pergunta “afinal porque não casamos ?” Macon queria pagar os estudos do miúdo: por quanto tempo ? Um ano, dois, para sempre ? Práticas as mulheres, Kasdan não falha uma, elas pensam sempre no amanhã enquanto nós... Macon não decide, Muriel começa a pressioná-lo. Macon voa para o Canadá, e é telefonicamente seduzido por Sarah enquanto viaja. Sarah reentra na sua vida e cas e ele deixa. Ou decide deixar. Despede-se de Muriel, recria a sua antiga casa, em busca de um passado que se possa reescrever. Sarah tenta entender como Macon pode ter gostado de Muriel, essa atipia numa pessoa que ela diz conhecer tão bem... E é numa viagem a Paris que tudo se resolve: Macon viaja em trabalho, Muriel viaja para assediá-lo. Terá gasto todas as suas economias nisso. E fá-lo de uma forma quase pueril, como se apenas buscasse cantar para ele mais uma vez. Diz-lhe “precisas que eu esteja por perto”. Macon não cede, até que um truque de argumento, quando ele finalmente vai convidar Muriel a acompanhá-lo a prosseguir viagem leva a um “bloqueio dorsolombar”, e ele não pode responder quando Muriel lhe bate à porta. Esta contrariedade faz com que a entrada de Sarah em cena para tratá-lo de mais esta enfermidade seja apenas o lento decair até à rejeição final, Macon e Sarah separam-se por insolvência mutuamente reconhecida, Macon avança que “Muriel precisa de mim” e que vai tomar decisões. Mais nada é referido, de costas doridas, apanha um táxi que lhe é entregue por um rapaz da rua (que vagamente lhe lembrará o seu filho...) e vai recolher mais à frente Geena Davis/Muriel também à espera para apanhar o avião de volta. Macon sorri e mostra os dentes, pelo primeira vez no filme como resposta ao lindíssimo sorriso de Geena Davis, uma festa ao longo de todo o filme. Is it love ? Who knows ? William Hurt encarna até ao extremo da anosmia o supremo dilema de porque casamos nós. É um filme de castanhos, de vidas aborrecidas, de tempos mortos e decisões tomadas por anuência e constatações. Esboça no fim o melodrama, a banda sonora não particularmente brilhante, o rapaz/filho a endossar o futuro do pai, tudo isto perdoamos porém pelo sorriso final desse homem-enigma que finalmente decide a quem dar boleia porque tem para dar, e porque quer receber. Guilherme Jan 2005 |
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