FILMES DE GUS VAN SANT
ELEPHANT 2003



Gus Van Sant é um realizador a quem perdoarei muita coisa. Porque fez “My Own Private Idaho”,
um grande filme. Mas a sua dramatização do massacre de Columbine, uma coisa de 80’ que dá
pelo nome de “Elephant”, não desmerece.
E então ? Não era fácil, era aliás um enorme risco. A América ainda não decidiu o que fazer com
essa dolorosa memória, até porque memória não é, os adolescentes e as armas continuam a
sua perigosa coexistência, com ocasionais resultados desastrosos, veja-se a semana passada.
Van Sant escolhe por começar o filme como se um documentário fosse. Introduzindo-nos
adolescentes de um  liceu Columbine-like de uma forma aparentemente denotativa, com pouco
ou nenhum som. Entra e sai um piano que é o Für Elise de Beethoven, que só depois
descobriremos ser tocado por um dos assassinos. E ao fim de uma meia hora, antes até, assalta-
me a primeira e afinal a grande pergunta: estes miúdos são órfãos ? Onde estão os pais ? O
filme leva uns cinquenta minutos a desenhar a terrível solidão destes adolescentes, os seus
silêncios, o seu caminhar sempre como que para lado nenhum. A dissociação é mostrada em
pequenos flashs de agressividade, pequenos entoações de discurso, sendo apenas mais
explícita naquele grupo de meninas que fazem que almoçam, que se tiranizam, e depois vão ao
wc vomitar em uníssono. Este liceu tem tudo, não parece ter o mais pequeno defeito, e porém é
desenhado aqui como se fosse uma prisão, um labirinto, ou um gigantesco colete de forças.
Há movimentos que se repetem, o realizador dá-nos o mesmo tempo visto por  várias pessoas
de forma a nos apercebermos que por onde quer que olhes é igual. Estes adolescentes andam
e correm com uma pequena pressa que lhes é marcada pelas sucessivas campainhas. O
realizador filma e filma as suas costas, que descobriremos vir a ser o alvo preferido dos dois
autores do massacre. Era aliás o jogo de vídeo que se abria depois de tocar piano, atirar sobre
as costas de alguém. E aí tocam à porta, é o carteiro, traz mais uma arma. Vamos lá
experimentá-la para a garagem. Há um beijo homoerótico dos anti-herois que faz descer o filme
para o 4,9, mas não agride. Eles beijam-se porque nunca beijaram, ou nunca foram beijados.
O realizador dá-nos algumas linhas de escape: eles são frustrados, foram maltratados na/pela
escola, agora vingam-se, mal influenciados pela internet e uns videozitos nazis. Mas a própria
encenação de tudo isto serve para nos dizer que isto não chega. E eles querem morrer, mas
vingando-se. De todos. “Having fun”. As miúdas pelo contrário só queriam morrer depois de tirar
a carta, “just kidding”.
O jogar com o tempo, as repetições, os momentos de ralenti, criam uma sensação
benzodiazepínica que dura os 80’, ou de estarmos a lidar com mortos-vivos, e efectivamente
alguns deles vão morrer. Como aquele miúdo de cor, que apenas não-vai-embora, até que um
deles o encontra, ou se encontram-um-ao-outro, e morre. Aliás o primeiro rapaz, que ”toma
conta” do pai bêbado, apercebe-se do que vai acontecer e desata a correr (mais ou menos) a
avisar gente. Não explica o que vai acontecer, nunca fala em armas, como se estivesse a avisar
o pessoal de uma simples e aborrecida inundação. A primeira reacção de todos ao ouvir o
primeiro tiro é sempre dizer “não é nada”. E depois mais tiros. E na realidade tudo isto é apenas
um jogo de crianças, pois é assim que termina o filme: “Ene mene, myne, moe”/”Um do li tá”. O
resultado fica por saber, porque o jogo está aí.
Só uma nota: o mais presente dos pais é o bêbado Timothy Bottons...