FILMES DE FRANÇOIS FRUFFAUT
NI AVEC TOI NI SANS TOI - La Femme d’à côté 1981



       Existe um cineasta francês que faz com frequência os seus filmes à volta de provérbios. Não se chama François
Truffaut mas sim Éric Rohmer. Porém, este filme, “La Femme d’à côté” é isso mesmo. E o provérbio, ou os dois
provérbios, ou ditos populares, surgem - o mais importante - no fim “ Ni avec toi, ni sans toi”, o mais jocoso lá pelo
meio, alguém que passa pela acção e lembra ao amigo “nunca dormir com a vizinha”...
       Estamos não longe de Grenoble, mas no campo. E numa aldeia duas casas: na primeira um casal feliz, simples,
um filho, ela, Arlette (Michèlle Baumgartner) em casa, ele, Bernard (Gerard Depardieu), “treinador” de petroleiros. À
segunda casa chega outro casal que é uma antítese deste, pois ele é um anónimo controlador aéreo, Philippe (Henri
Garcin), e ela é Mathilde, e uma morena de olhos escuros que, definitivamente, não pertence a este campeonato.
Mathilde é Fanny Ardant, e o par trágico está desenhado. Falta o porquê. Aquilo que qualquer espectador
pressente, que Mathilde é a carta fora do baralho, Bernard explicita-o: “qu’est-ce qu’elle fait ici ?”. Mas o que não
poderíamos adivinhar é que ele vai-lhe logo telefonar a perguntar isso mesmo: há aqui paixão antiga, ferida
sangrante. O filme é isto e mais nada, sendo os cônjuges deste par apenas marionetas, figuras sem espessura ou
importância para o desenrolar da história. Só há mais um personagem com relevo, a narradora, Odile Jouve
(Véronique Silver), prótese na anca após tentativa de suicídio por desespero amoroso. Metáfora na metáfora, como
o jogo de ténis, a pertencer a quem manca por sequela de paixão, ténis que pode ser sinecura, jogo de salão, ou
duelo mortal.
       Como se desenrola o “e mais nada” ? Num progressivo delírio de Bernard e Mathilde. Primeiro em encontros
fortuitos, com o reabrir das hostilidades, pois facilmente se percebe que a relação entre os dois ce n’était pas un
long fleuve tranquile ! Os encontros passam a regulares, quando ela quer parar ele quer mais, os timings de um e
de outro sempre desencontrados, como se um magnetismo destruidor quisesse ultrapassar todas as barreiras.
Nunca conversam, como se a fala só pudesse agudizar a hemorragia, renovar o hematoma. E surge a festa de
despedida de Mathilde e Philippe para uma tardia lua-de-mel, Bernard não sabia, ela afinal quer parar, e todo o furor
de Bernard irrompe pelo filme dentro, só Depardieu para dar vida ao descalabro público de uma paixão tão
dominadora e obrigatoriamente violenta, pois aquela casa, aquele jardim, com festa e pessoas incluidas, sobravam
àquela fúria incontrolável. Bendito Depardieu mais o seu tórax desconforme. Mathilde é retirada de cena e acaba
internada por “depressão nervosa”. Os conjuges ficam a saber tudo mas, de pouco lhes adianta... embora Arlette
jogue uma cartada adicional e que é sempre forte: está grávida. Já Mathilde tinha dito a Bernard que tinha querido
ter um filho com ela e afinal tinha-o de outra: agora eram dois...
       E pela gravidez ou não, Bernard parece curado. Até recusa o primeiro pedido de Philippe para ajudar na
recuperação de Mathilde. Finalmente ajuda, e ela recupera. Mas recupera despedindo-o secamente. Ao sair do
hospício sai com um plano. Será em Odile Jouve que pensa ao murmurar “Émmène-moi mon amour !” O resto é filme
negro puro, como Truffaut tanto gostava: atraido por uma porta que bate, Bernard volta à casa em frente, onde está
Mathilde. Subjugado uma vez mais pela paixão é morto com um revólver por Mathilde en plein plaisir, Mathilde que a
seguir se suicida. A ambulância que se vê no princípio e no fim do filme, era afinal para os dois. Hitchcock versão
Truffaut, nisto e em outras coisas.
       É uma história de um amor, ou de uma paixão, como queiram, destrutiva. Onde não há explicações, portanto
palavras. Muitas vezes um dos dois diz “Attends !” mas isso é uma impossibilidade. Quando Mathilde diz “Viens !”
pela primeira vez no filme, é para matar e selar um destino. Não temos aqui explicações nem uma moral, e torna-se
difícil destrinçar qual dos dois procedia “pior”, ou de uma forma mais irracional. Não se pode porém deixar de pensar
que era Mathilde quem tinha razão, e ao morrer, Bernard deve ter dito para si mesmo:. “como não pensei nisto antes
?”. Uma ética de uma paixão assim deve levar os dois amantes à morte, até como especáculo dissuasor, dirão.
Mathilde poderia também estar a vingar a Mme Jouve, vítima de um abandono com lhe pode ter parecido o seu. Mas
o seu amante não faltou ao último encontro. Agora morta, não poderá responder a mais perguntas. Porque é assim
que deve ser: uma paixão destas deve permanecer um mistério inexplicável.



                                                       Out 2004