E ENTÃO PARA ONDE VAMOS ?






1.






  Era o fim da tarde, uma tarde fria e ventosa de Fevereiro.Com alguma cautela, conduzia um
Audi 3 emprestado em direcção ao sol. Mas não sabia para onde ir.
  A suave curva da auto-estrada cortava o verde de um prado debruado com salgueiros. Depois
de umas subidas, à direita e à esquerda, umas dezenas de eucaliptos dourados pela hora
tardia, e descontentes pelo frio intenso. Na portagem, ficou um pouco afastado (carro largo,
este, e pesado), pagou com o braço esticado, esforçando-se para dar normalidade ao facto de
estar ali com um carro que não era seu a uma hora que não era a sua. E virou para Viana, pois
a casa agora não era mais do que um caixão onde, mais do que vida própria, palpitante,
residiam memórias, odores perdidos, manchas e riscos pelas paredes que mesmo com
analgesia ele não queria hoje encarar de frente.
  E porém ,entendia tudo. Muito dotado para línguas, tinham-lhe dito mais que uma vez, até
estivera tentado a colocar esta frase num qualquer dos vários currículos que já tivera que
redigir. “Muito dotado para línguas”. Como se camisas fosse, golpes de teatro, gestos de
malabarista que de real nem o esforço têm, só o espanto de quem vê e não acredita. Planos
para um disfarce. Aliás considerava-se um bom usuário da língua portuguesa. Tinha, porque
não dizê-lo, um certo orgulho em determinadas palavras pouco frequentadas pelo povo e que,
no seu dia-a-dia, buscava como território seu, cabos de boa dobra, em busca de uma acalmia
de expressão só sua. Seria porém e só o seu melhor disfarce, o mais trabalhado, o mais
completo. A sua língua materna era o silêncio.

  “Amei-vos uns aos outros como eu vos Amei”. Um papel com estas palavras estava
amarrotado no chão à porta do restaurante. Fazia frio e soprava um vento brusco e seco em
Viana do Castelo. Era quinta-feira e o Benfica ia arrasar o Beira-Mar para a Taça. Esquecendo
os problemas à volta do tempo verbal, o umbigo do mundo por ali andava: “uns aos outros”.
Soava a promíscuo. A vida era como as doutrinas, cheia de contradições. Quando se entra num
restaurante e se diz: “uma pessoa”, das duas uma, ou se arranja uma cara executiva, o que logo
obriga a material anexo condizente, sobretudo, pasta com computador portátil, telemóvel a retinir
de uma forma constante, ou então pede-se desculpa. Não se conseguiu, tentou-se uma
companhia mas não apareceu, ou não há e pronto. O aparelho de ar condicionado despedia
naves extraterrestres para outros mundos, e o empregado desistiu de sugerir um vinho, pois
ninguém o ouvia. Fazia frio lá fora, e depois ? Era inverno, sejamos racionais. “Uns aos outros”.   
Quanto amor havia neste restaurante ?
  Reparemos na empregada que está a servir a mesa três. Espelha a sua cara horas e horas de
trabalho. Enrugadamente discrimina e rejeita as sandices que lhe são distribuidas por esta e
aquela mesas. Pede os pratos como aritmética mas não falha um detalhe, um talher mal
colocado, o jogo de copos inadequado. Serve e pergunta: “está a gostar ?” E o amor dela ?
Aquele sorriso cansado que acabou de trocar com outro empregado será mais do que um pouco
de solidariedade operária ? O Benfica não arrasava ninguém, e neste restaurante não se
descortinavam soluções. A famosa dúvida sobre que sobremesa escolher podia servir como a
metáfora que se segue: há na vida alguma forma de escaparmos todos ao bolo de bolacha ?
  Ao sair do restaurante pegou no papel amarrotado e depositou-o numa papeleira. Daria má-
sorte fazer isto ? Tinham-lhe telefonado, teria que devolver o Audi, os imprevistos, as mil
desculpas. O telefonema fôra antes do desprezar da mensagem divina mal atempada
verbalmente, e a má sorte já vinha de muito antes.

   É de manhã. Como sobreviveríamos sem a TSF ? Ao acordar tem sempre a sensação de ter
acordado para um novo mundo. Os passos que dá, sempre se fazem anteceder de uma
hesitação, como se a gravidade tivesse descido uns pontos entre ontem e hoje, ou o planeta
fosse diferente. Reaprende-se a cozinha, o banho, os telhados em frente. A janela que embacia
mais do que as outras, sabe-se lá porquê.
   E no trânsito pensa-se o mesmo: afinal é assim viver neste mundo. A TSF dá as restantes
explicações. O Polo alugado era como uma nave espacial fretada, havia sempre um ou dois
truques ainda não conhecidos, o orientar dos reflectores, por ex., obrigando a manobras
cervicais dolorosas, porque era uma fila confusa de carros em guerrilha surda, e já era tarde. Ao
fundo, à direita, o sujo hospital.
   Com o sinal fechado, no lugar do morto uma agenda dos afazeres, nomes e nomes para
visitar. Abriu o sinal, apitaram, seguir e rodear para a esquerda, estacionar em parque pago
pela companhia. Ao menos esta regalia ainda não lha tinham tirado. Eram nove da manhã, o
hospital estava ali, à sua frente, já limpo da bruma da manhã, e parecia-lhe um maremoto, uma
imensa montanha de algo contendo em si um número não determinado de mortos, ou pessoas
em vias de sê-lo. Outra profissão seria benvinda. Suspirou e atravessou no verde.
   Enquanto subia em passo moderado a rampa para o piso 2 de acesso pensou que, vista do
ar, esta rampa explicaria porque, àquela hora, o hospital parecia atrair tanta gente, e tão
diversa. A rampa, com uma subida e uma descida, tinha a forma de um íman. E assim doentes,
familiares, fornecedores, crianças a vender pensos, médicos, enfermeiros, gestores, e muita
mais gente bichanavam o seu caminho, quase todos para entrar, uns poucos saindo de uma
noite bem ou mal passada. As batas, os casacos, as fardas, os gessos, tudo sinais de
identificação tribal. Nem na “Guerra das Estrelas”.
   Entrou, à direita o banco. Ao contrário de todos os colegas que conhecia, achava prático ter
uma conta naquele banco. Á esquerda onde comprar o jornal, tomar um café. Uma menina
cigana vendia pensos. A vigiá-la à porta a irmã, grávida.
   “Bom Dia, Mercitani, Alexandre Gomes” “Bom Dia” E um crachat de acesso. Bom, tinha que
entrar, e entrou. A administração acabara de fazer obras. “Com o meu dinheiro”, pensou. E
sentiu-se um pouco revolucionário, ao pensar assim. Suspirou, e começou  a subir escadas.

“I Love You Mizancéne”. Estas mesmas palavras encontravam-se assim escritas num muro da
praia de Matosinhos, uma sequelas de uma Polis meia mal atamancada. Eram estas palavras
marca de água a tomar conta e proveito dos novos tecidos urbanos. Lembrava-se. Agora, à
entrada daquele serviço médico num hospital, questionava pela enésima vez toda a água de
colónia do estar ali, porque e para quê. Tirou um livrinho de notas,  três médicos para visitar.
Mas isto aqui não era a casa deles. E era cedo. Nenhum dos seus colegas de parasitismo tinha
ainda chegado, e os médicos estavam a passar visita, ou a simulá-lo, parecia. Por uma janela
via-se a sala deles. De uma forma mais ou menos digna tentava-se ver quem estava. Quanto
mais velhos (os médicos) menos forçavam as articulações que necessárias eram para construir
o movimento de levantar. Os mais novos, a gosto ou a contragosto, entravam e saiam a reportar
desse mundo estranho onde predominava a doença, as enfermarias. Doutor A ? Saiu de fazer
urgência. Doutor B ? Na consulta. Doutora C ? Doente.
Ao sair do hospital respirou de alívio. Cruzou-se com um conjunto de pessoas que davam as
mãos e contrariadas entoavam umas palavras de ordem contra “o Metro”. Algo sobre um
enterro, e uns túneis. Na próxima façam uma manifestação para dar uma pintadela nova ao
hospital, pensou. Ou para que os doentes melhorem, se a coisa não fôr lá de outra forma. E
esbarrou numa mulher que coincidia em retirar-se do hospital. Alíás parecia que fugia. Morena,
não alta e proporcionada à melhor maneira portuguesa pensou, muito morena, e com uns olhos
achinesados. “Peço desculpa”. “Peço desculpa”. E seguiram. Calharam de atravessar no mesmo
tempo na passadeira da circunvalação, primeira parte. Mas depois ela passou no vermelho, ele
hesitante, como ficara depois de começar a pensar se uma criança, que exemplo dar, mas ali
não havia criança nenhuma, só uma mulher mais uma a escapar-se. Retirou o carro do parque e
logo depois parou no semáforo. E agora, que fazemos ? Para onde vamos ?

Tocou a uma campainha. “Já vai”. Como se soubesse. “Entre, a casa é sua” Era uma
brincadeira, não uma ironia. E sentaram-se.
Encontras alguém e logo uma palavra aparece como um selo, agarrado à testa dessa mesma
pessoa, como um ficheiro anexo. E a palavra pode ser aborrecida, até conscientemente
inexacta, pede-se à palavra para sair mas ali fica, a bailar. E aqui a palavra era “enleio”. Onde
lera ele essa palavra, egrégia, antiquíssima, coisa de brumas e virgindades, mas a atrapalhação
que sempre o possuia ao entrar naquela casa ele classificava-a assim. Julio Dinis, nem mais.
Porque aquela mulher de sessenta anos conhecia-o em fatias finas, ao microscópio, toda a
trama. E abria-lhe a porta sempre com um sorriso. Há coisas que se agradece.
Perdera o marido em acidente há uns anos, de três filhos nenhum lhe frequentava a casa com
assiduidade. Livros e livros, e um cão. Dizia que um cão é mais simples. Olhos claros e cabelo
apanhado, um cigarro meio fumado após cada almoço. Recém aposentada porque fôra
professora, e cedo. Fazia cursos sobre cursos, os quais depois dizia detestar, pois discordava
do que lá aprendia. “Menino o que toma ?” “Conselhos, dois a três” “Preparo um chá. Os
conselhos vêm depois. Deixe-se estar sentado”
Chamava-lhe Liza, porque ela era Elisa Maria, e porque fora sua sogra durante seis meses.
Falamos agora da filha mais nova, a qual depois fôra praticar advocacia para o Brasil, e por lá
ficara. Mas voltemos. Tratava-a por tu, e ambos tinham prazer nisso. Ela fazia da proximidade
uma gestão parcimoniosa. Estava-lhe agradecida, um casamento estapafúrdio tinha dado rumo
(Brasil) a uma filha muito desarrumada. Andava por lá, consta, a defender os Sem-Terra.
Os gestos eram poucos, ele fazia girar os olhos sobre a casa, refazia as estantes, os objectos
conhecidos. Aconchegava-se. E esperava pelo seu chá. Veio o cão resmungar. Chamava-se
Santo Lenho, de seu nome completo. Mas ela reduzira a coisa a Santo, como a série da
televisão. Para não ofender. E esclarecia não ter sido dela a ideia do apósito.
“Então ?” O mimo. “Não me queres ler a sina ?” Ela abriu os olhos. “Menino, não são horas. E
não são anos ! Não se oferece uma mão que já esteve na família !”


Parara o carro. O CD rodava a uma velocidade muito superior aos LP’s antigos, e era assim com
tudo, porque aconteciam as coisas tão depressa, dentro de pouco outro ano, e agora ? “Come
as you are...” mas, how, who am I ? Estou bem, obrigado, aquela pneumonia da comunidade
curou-se bem, até a palavra comunidade nos pode dar uma sensação de pertença, embora as
doze horas de ventilação não invasiva não tivessem sido particularmente agradáveis. “Nirvana”.
Seria um inferno, pois o gajo até se matou, terá percebido que não há nirvana, e que a vida se
resume a visitas médicas sem cessar, voltas e voltas a uma cidade sem entrar nela –
circunvalação todos os dias, casa em Matosinhos – ao perímetro, como se fôssemos os índios, e
a lembrança não do sexo, não, mas de mãos, de olhos, de costas que se viram e descobrem um
abrigo. Mas as lembranças estão lá dentro e não podes ou não consegues, ou já não te lembras
como se entra – Monte dos Burgos e virar ? “And I swear that I don´t have a gun…”
Mas talvez eu consiga só ser eu por um pouco, pensou. Não fixar as amarras de todos estes
anos em por quem passaste, mas no que andaste a fazer, corrijo, no que fizeste. E sem a ajuda
de efeitos especiais. Ah, bom, eu sempre fui só eu mesmo. Nunca o fio de uma teia de aranha
por perdido que estivesse se dedicou a unir-me a ninguém, a nada. Acima, ao lado, por fora. E a
seco. Que são de uma força imensa, dizem, esses fiozitos: melhor não mexer com eles, portanto
E depois Caetano canta Kurt Cobain, o qual afinal sempre tinha uma arma, ou terá ido arranjá-
la, quando percebeu que o nirvana não era já ali. Visitas e visitas e visitas, sem cessar. Aos
médicos. Shhhh... E a voz sexagenária de Caetano acabou na canção, e depois acabou a
canção, e o filho Moreno entre os ajudantes à matança. Por falar nisso...
Tarde. Noite. Há duas horas dentro do carro parado, e em frente de casa. Estacionado do outro
lado da rua em relação à entrada da garagem, não conseguiria entrar com uma manobra
apenas. Seguir em frente e rodear o quarteirão ? Puxar o carro à frente, marcha-atrás para
ganhar posição e meter ? Chegar ao cruzamento em frente, inversão e voltar para entrar ?
Trinta e cinco minutos depois decidiu-se pela opção b).
”Take your time / Hurry up…”.