FILMES DE DAVID LYNCH
THE ELEPHANT MAN - 1980



     Pedem-me para falar do Homem-Elefante de David Lynch, filme que já visionei algumas vezes, e
perante este pedido, faço como que uma viagem no tempo.
No início dos oitenta, quando este filme apareceu, houve uma representação teatral muito celebrada da
mesma história, julgo que em Londres, e por David Bowie. Este recriava o personagem sem qualquer
efeito especial, apenas com roupas brancas e o desenho com o corpo de todas as limitações e defeitos
do ser em questão.
     Tal não acontece neste filme. Não podendo revisioná-lo para tornar este texto mais polícromo,
vamos então às lembranças.
     Fumo e nevoeiro, mistério e temor. Estamos no século XIX, e Londres é uma cidade particularmente
enevoada, por uma revolução que criou os seus monstros, ou a curiosidade pelos mesmos. Os circos,
espectáculos que se democratizam neste século de enevoadas luzes, são sobretudo colecções de
anormalidades. Teria que saber mais de cinema para aferir se partes deste filme não vão por aí
reverenciar o mestre, Tob Browning, de meio século antes, no seu filme “Freaks”.
Branco e preto, nevoeiro e um hospital, onde o branco da enfermagem e do vestuário médico não
esconde também o lado circense e de espectáculo horrível que os hospitais de então possuiam. E no
meio disto tudo um Anthony Hopkins muito novo, e portanto muito pouco capaz ainda de tudo, apesar
de médico e de admirado. O branco e negro contrasta-se mais ainda quando a horrível figura aparece.
A impotência de Hopkins atinge-me a mim mais quando me apercebo que o mérito científico nestes
tempos era apenas o da descrição
     A memória sobre o desenrolar da história tenho-a definhada e entrecortada, com lampejos de
contraste a iluminar momentos de maior impacto, numa visão desfocada de um filme a retratar um
tempo que também assim o era. O Homem-Elefante, o personagem, torna-se subtilmente uma metáfora
sobre os direitos e os deveres sociais, e sobre o que nos define como humanos. Meio homem meio
elefante ? Esta mirabolante história que jaz quiescente ao longo de todo o filme, a da mulher violada
por um elefante, coexiste com a evidência do personagem (fantástico John Hurt) ser particularmente
sensível e dotado para as letras e as artes. A questão do “e se não fosse” não se coloca aqui porque
este indivíduo terá existido mesmo, e com estas características. A sociedade culta do tempo conseguiu
aceitá-lo, e aplaudi-lo, numa ânsia talvez de legitimação ou num frenesi positivista.
     Filme um bocado longo, porque longo foi o sofrimento deste homem, filme que explora todas as
possibilidades que o branco-e-negro pode dar. Ora denotativo e quase documental, ora seguindo os
caminhos do expressionismo alemão, o dramatismo é aqui sobretudo visual, com o contraponto da voz
que o Homem-Elefante vai amaneirando, com uma elegante e enfática gaguez sinusítica.
Objecto da maior crueldade (humana) e ao mesmo tempo ou intermitentemente, objecto de culto, o
Homem-Elefante só não consegue escapar à maldição do seu próprio corpo, paroxismo do improvável
que não lhe permite dormir na horizontal sob risco de asfixia. Ciente disto, o nosso personagem comete
no fim suicídio ao deitar-se. E devolve assim à paz do nada o ruído desse pecado original que
atravessa o seu subconsciente filmado.
     Injustiça que podemos considerar maior ainda apenas pelo facto de os elefantes serem das
espécies socialmente mais evoluidas, e solidárias.


Nov 2004 Guilherme