FILMES DE CLINT EASTWOOD
PALE RIDER  1985


Clint Eastwood é um cowboy. O último. Quando ele morrer, não haverá mais. Por isso “Pale Rider”
é um filme feito por ele e à sua medida. É silencioso, como Clint Eastwood. Não explica as origens,
o conteúdo ou o destino do personagem principal, o “Pregador”. Só se percebe que é  uma
espécie de anjo, mas exterminador, uma referência bíblica, um sonho tornado realidade por uma
criança adolescente no meio da adversidade, que o convoca. Adversidade explicada pelo episódio
de destruição e perseguição de colonos pelos empregados do mau da fita, com excelente
montagem logo ao começar o filme.
Sendo um western é um filme que se baseia em determinados esquematismos. Os maus são
corruptos, tomaram conta da cidade, e (um update), não respeitam a terra (é um filme ecologista !)
utilizando tecnologia “pesada” para procurar ouro. Enquanto os pobres diabos continuam a
peneirar e a martelar. O “Pregador” chega, e transmite-lhes a força e a irreverência da união.
Este é um western-spaghetti, ou com muita influência de. A cena kung fu-like com os paus que
introduz o nosso herói é zen q.b. À adolescente que convoca a vingznça, o milagre, mataram-lhe o
cãozito. O sangue não se esconde, as marcas “sobrenaturais” de antigas feridas menos ainda. Os
maus são mesmo feios.   
E as mulheres são pragmáticas, a apaixonar-se caiem pelo mais forte, mãe e filha. Ganha a mãe,
na carne e no pragmatismo, pois no fim ficará com o mais digno dos colonos, o menos impotente,
excelente composição de Christopher Penn.
O duelo final é também à S Leone, com alguns planos a falar italiano, um contra sete, mas vários
truques e jogos de câmara vão diminuindo a desvantagem até ficar só o Marshall Stockburst, que
morto será com o mesmo desenho de balas que o “Pale Rider” transporta no dorso, mais uma na
testa, a selar o destino.
Este western é frio como a lindíssima  paisagem do norte americano a realçar as adversidades. No
fim nada está ganho. Mas morreu quem tinha que morrer, e o coração de duas mulheres ficou
mais quente, e a dignidade de uns quantos recuperada. Um milagre, ontem como hoje.

Março 2005





BLOODWORK  2002



Bloodwork é um “pequeno filme” de Clint Eastwood que apareceu em 2002, sendo a sua 23ª
realização em 31 anos, o que supõe uma actividade quase ininterrupta enquanto realizador, desde
1971. Clint Eastwood só começou a ser reconhecido enquanto realizador a meio deste caminho e,
sendo neste momento consensual na Europa ainda não o é nos USA, mesmo com o óscar deste
ano, 2005.
E Clint Eastwood vai desenhando o seu envelhecer connosco, como neste filme.
Ele era um agente da FBI com sucesso, não um tipo do topo, mas alguém conhecido, sobretudo
por perseguir caso após caso um serial killer com uma fixação nele próprio, o "homem do código".
Na última das perseguições, ele sofre um enfarte, tem que se reformar, e anos depois é-lhe feito
um transplante cardíaco, pelo que recua para um barco, fazendo dele o seu ninho de reformado e
transplantado, crendo o seu inimigo pessoal alvejadoe morto ao escapar-se naquele dia.
Até que um dia lhe aparece a irmã da mulher de quem ele recebeu o coração a dizer que ela foi
assassinada, e que dela só resta um filho, e o coração que ele transporta. Com outro morto pelo
caminho, cedo percebemos que o inimigo do "código” não está morto, e que os dados estão
lançados.
Temos então um filme cheio de pequenas ironias: um ex-detective vai descobrir que um serial killer
lhe “ofereceu” um coração, para o manter vivo, enquanto seu melhor inimigo, optimizando inclusivé
as condições de recuperação do órgão da agonizante vítima, a irmã de Graziella. Esta apaixona-se
pelo relutante justiceiro,  embora ele seja a razão directa da morte da sua irmã. Cujo assassino é
“the boy in the next boat”. Cujo apelido porta o código que o filho da morta vai ajudar a decifrar. E
o ex-detective não consegue decidir se merece ter o coração que transporta, comparando com (a
injustiça de ser eu quando podias ter sido tu o compatível), e quando ainda por cima essa
preferência do destino foi ditada por um assassino, e que “en passant” o retira agradavelmente da
reforma. O showdown acaba por ser familiar, Graziella, a irmã da vitima acaba por dar uma
ajudinha, e no fim tem um pequeno gesto à Dirty Harry, afogando o que não era para ficar a
flutuar. Ao de cima fica um ex-polícia renascido-transplantado, que para além do coração com ele
recebe uma família. Uma costela mística… que se aceita, um filme agradável e curiosamente
tranquilo, feito classicamente e sem muita pressa (o coraçao é transplantado...) que é uma pausa
certeira antes da explosão com  "Mistic River" e “Million Dolar Baby”.


Março 2005